Balanço inicial: já com dez aulas, por turma, apoio ao 1º ciclo, inserção na comunidade amarelejense e novas amizades, a nova vida que levo em terras alentejanas está a ser uma experiência positiva.
Passados três meses desde o impacto da mudança, apercebo-me que fiz uma escolha sensata. A mais certa que poderia ter nesta altura da minha vida. Não a mais desejada e sonhada, mas a mais sensata.
Pelo menos posso advogar a sensatez e ter isso em meu favor. Na altura em que estamos, sensatez é coisa que parece estar em vias de extinção, aniquilada e nas profundezas de algum oceano ainda por descobrir. Apartes adiante…
O Alentejo é terra acolhedora. Quente por natureza e suportável. Apesar de regressar de forma consecutiva à Benedita todos os fins de semana – num constante corropio de viagens, de boleias e de expressos – apercebo-me que tenho ainda muito a ganhar com a terra que me recebeu de braços abertos e me dá o necessário sustento para alimentar o jornalismo e seu estudo, sonho que ainda quero ter para mim como possível e tangível.
As aulas são uma aprendizagem constante, como professora e como ser humano. Lidar com crianças é algo belo e perigoso. Há um constante jogo de provações e de experimentações, de sentimentos e ensinamentos, que podem ser um tudo para muitos e um nada para todos.
Saber cativar tem muito que se lhe diga e, transmitir conteúdos ditos escolares é também uma árdua tarefa, já que consiste em algo necessário e imprescindível para a formação do futuro de amanhã.
Tento todos os dias superar-me, aprender a ser a professora e não como a miúda que está em pânico interior por ter novas experiências e ser do tamanho dos alunos a quem abre os olhos. Aprendo com os erros que faço, mesmo que eles, os alunos, não se apercebam que são erros.
Ganho imenso por estar rodeada por bons profissionais que ainda não deixaram de ser máquinas e ainda sentem o aperto de estar numa profissão maltratada e castradora de futuro. Opino com eles e discuto com muitos a minha visão – desoladora – do panorama actual e sinto com eles o inevitável suspiro de tristeza pelas baixas diárias de gosto e paixão.
Vir para esta terra e para esta nova profissão tem-me dado milhares de novas dúvidas e algumas respostas. Fico-me sempre pelas dúvidas, já que a idade também ainda não me permite ser sustentável quando desejaria, em termos de partilha de vivências. Mas do pouco que já vivi, sinto que ser professor é um sarilho dos grandes: leva-se de todos os lados, de quando menos se espera e os resultados imediatos são as respostas tortas dos alunos e o seu pouco interesse pelo que quer que seja.
Mais uma vez partilho esta visão, pode ser considerada desfasada e exagerada, e mais um par de botas velhas que me queiram vender. Na verdade, este ano de experiência vai marcar-me. Deixar de forma indelével imagens e referências do que poderei dizer que foi o meu passado…





